sábado, 9 de março de 2013

É LEGAL, MAS NÃO É JUSTO

De tempos em tempos, os brasileiros são surpreendidos por leis absurdas, verdadeiras aberrações jurídicas que servem apenas para mostrar o quão distante estão o discurso e a prática do legislativo nacional. A lei que estabelece cotas para negros em universidades públicas é mais uma delas.
Em primeiro lugar, toda forma de preconceito deve ser severamente combatida. Entretanto, a partir do momento em que o legislador estabelece, com base legal, um tipo de seleção distinto para determinado grupo, raça ou etnia, ele admite a existência de diferenças e reforça a ideia de um Apartheid à brasileira. É inadmissível desprezar um dos mais emblemáticos preceitos da nossa Carta Magna - a Constituição Federal - que diz sermos todos iguais perante a Lei. Em outras palavras, o legislador cria uma lei para desdizer a própria lei.
Além disso, esse tipo de favorecimento traz consigo, implicitamente, a noção de que os negros são inferiores do ponto de vista cognitivo. Mas com base em quê? Há muitos exemplos de pessoas de pele negra que atingiram o auge naquilo que se propuseram a fazer, lançando mão de sua intelectualidade. Como não lembrar da liderança de Martin Luther King Jr. observada em seus discursos épicos e verdadeiros; como  esquecer de Machado de Assis, o às da Literatura Brasileira, dono de um senso de humor extremamente rebuscado; de Kofi Annan,diplomata ganês e ex-secretário-geral da ONU;  de Joaquim Barbosa, presidente do STF entre tantos outros. Será que esses negros precisariam de alguma forma de facilitação para entrar numa universidade? Obviamente, não!
É importante ressaltar, ainda, que o Brasil é uma nação fundamentalmente miscigenada. Sendo assim, encontrar um brasileiro que não possua em sua formação genética nenhum traço afrodescendente configura-se uma tarefa muito pouco provável, para não dizer impossível.
O que fica claro aqui é mais uma atitude paliativa, mais um "jeitinho brasileiro", de tentar resolver o problema da falta de oportunidades para determinados grupos, retirando a responsabilidade das costas do poder público. Ocorre que, ao invés de eleger a cor da pele das pessoas como aspecto principal na determinação dessas cotas, os legisladores brasileiros deveriam considerar os indicadores sociais. Nesse sentido, pessoas de baixa renda - independentemente da cor de sua tez - poderiam ter o benefício das cotas como uma espécie de compensação, uma vez que estes não tiveram as mesmas chances de estudar como tem as classes mais abastadas. Ademais, o poder público deveria investir pesado na educação, garantindo a todos, seja na periferia ou nos grandes centros, as mesmas oportunidades de estudo. Só assim não haveria mais esse tipo de disparate legal.

Um abraço

quarta-feira, 6 de março de 2013

NÃO ATIRE COM A MUNIÇÃO DOS OUTORS

Em 1988, eu estava na 4ª série do primeiro grau (5º ano do ensino fundamental, atualmente). Na minha turma, havia um sujeito malvado, um canalha, uma espécie de Joey Caruso (daquele seriado praticamente inédito na TV Todo Mundo Odeia o Chris). O garoto praticava toda sorte de traquinagem. Pegava a bola que os meninos levavam para se divertir na hora do intervalo; colocava goma de mascar no cabelo das meninas; batia nos meninos; tomava e comia aquele lanche sensacional - salgadinho com din-din - e ainda ficava rindo das vítimas. Eram tempos difíceis. Mas como nada é tão ruim que não se possa piorar, eu era um dos alvos principais. Quase todo santo dia, ele me obrigava a sentar em cadeiras diferentes e isso me irritava muito, pois eu gostava de ficar na frente da sala. Eu tinha muita raiva, mas tinha mais medo ainda.
Um dia, entretanto, minha mãe pediu a meu irmão para ir comprar o pão. Eu o acompanhei até a padaria e se você está achando que eu encontrei o menino da minha turma na padaria, você acertou. Ele estava lá!
Eu olhei para meu irmão - que já era um galalau forte - e comecei a contar as coisas que aquele indivíduo aprontava na sala. Meu irmão olhou para mim e disse:
- Vai lá, dá umas porradas nele. Se ele vier bater em você, eu te defendo.
Confesso que fiquei balançado. A proposta era muito tentadora. E sem avaliar as consequências, fui até ele e comecei a provocar, enquanto meu irmão ficou escondido perto da porta.
- Ei, vem tirar onda comigo agora. Eu te quebro no meio. Tu tá achando que eu tenho medo de você? Acreditem ou não, fui eu quem disse isso.
Quando ele se virou para mim e ameaçou vir na minha direção, eu reagi - fechei os olhos -e meu irmão surgiu do nada. O menino, claro, baixou a cabeça e foi saindo de mansinho ouvindo uma série de palavras as quais não serão publicadas aqui  em detrimento de seu teor de baixo calão. Eu fiquei extremamente aliviado, como se tivera passado por um catarse (purificação definida por Aristóteles em seu livro Poética). O grande problema é que as coisas não tinham acabado por ali. No dia seguinte, haveria aula e eu só me dei conta disso quando estava voltando para casa.
Foi uma noite horrível. Não preguei os olhos. Para onde eu olhava, eu via aquele rosto encolerizado. De manhã, saí mais cedo que o habitual. Convenci o vigilante para entrar logo (dentro da escola eu estaria mais seguro, pensei) e fiquei na sala de aula aguardando.
De repente, eis que surge o menino. Segurando um chicote de goiabeira, ele golpeou a minha mesa. Eu, tal qual faria um soldado americano desarmado ao encontrar um soldado vietnamita armado até os dentes no meio da guerra, baixei a cabeça e esperei o pior. Ele aproximou-se e disse:
- Repita agora o que você estava falando ontem! E olhando fixamente para mim, ele gritou um monte de palavrão. Por incrível que pareça, essa foi a minha sorte: sua mãe era professora na escola e ao ouvir aqueles gritos, ela reconheceu imediatamente a voz do filho. Ela entrou na sala e mandou que o menino parasse. Depois disso, ela o chamou pra conversar e nunca mais o garoto voltou a me perturbar. Até hoje eu me pergunto: "o que será que ela disse a ele que o fez mudar de comportamento?". Como eu nunca encontro uma resposta, prefiro contar que ele ficou com medo de me encarar.


Um abraço

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Era para ser uma simples apresentação de trabalho para a disciplina de Oral Expression. O professor havia pedido à turma que fizesse um Speaking - de 10 a 15 minutos - com tema livre, desde que fosse algo interessante, e nós tivemos cerca de uma semana para preparar o trabalho. Eu andava meio cansado, com aquela mania de deixar para o dia seguinte aquilo que você deve fazer hoje. E o tempo passou.
Quando pensei que não, já era a véspera da apresentação. Comecei a procurar algo interessante e encontrei um texto sobre Grafologia (estudo pseudocientífico que tem como base a análise da escrita para inferir sobre traços da personalidade das pessoas). Era isso!
Li o texto algumas vezes, pesquisei o assunto e estava com a apresentação na cabeça. Mas faltava alguma coisa. Faltava um diferencial. Faltava algo que prendesse a atenção da plateia.
Na hora da minha apresentação, comecei a falar sobre a grafologia com propriedade de sorte que pedi a um voluntário para escrever algo no quadro. Feito isso, fiz uma análise - superficial, é verdade - da escrita da menina, atraindo a curiosidade e atenção de todos.
Entre os espectadores, estava meu melhor amigo. Não era um melhor amigo qualquer. Era um sujeito baixinho, marrento, implicante, ranzinza, ensimesmado, fã de Morrissey e, ainda por cima, torcedor do Vasco. Era uma espécie de antagonista, de inimigo íntimo, que disputava comigo as melhores notas. Quando eu olhava em sua direção, ele fazia macaquices, tentando me desestabilizar. "Eu te pego, seu ...", eu pensava.
De repente, ele se levanta, dizendo com um tom desafiador: "Quero que você analise a minha escrita". As letras dele eram muito bonitas, quase desenhadas. Lembravam até letras de mulheres. "Pois não", respondi, "escreva algo na lousa". Ele escreveu um trecho de uma música do Morrissey.
Transmitindo seriedade, comecei a análise: "A sua escrita, companheiro, revela que você é um cara muito organizado, metódico, detalhista. A letra inicial maior fornece a impressão de que você é muito perfeccionista. Mas o detalhe que mais me chamou a atenção são aquelas letras caídas para a esquerda. Isso revela uma forte tendência ao homossexualismo!". Quando olhei, todos estavam rindo incontrolavelmente, inclusive o professor. O meu amigo era um misto de raiva com vergonha. Havia sido um golpe duro! Em meio às gargalhadas e comentários infames, eu precisei intervir:
"Calma, amigo! É apenas uma tendência. Não disse que você é gay! E mesmo que você seja, qual é o problema?"
Depois disso, as coisas voltaram ao normal. O professor elogiou a apresentação, solicitando, inclusive, que eu analisasse sua escrita. E o meu amigo passou o resto do curso dizendo que iria me dar o troco. Graças a Deus, até hoje não recebi nada!


Um abraço

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A EDUCAÇÃO É UMA ENGRENAGEM

O perfeito funcionamento de uma engrenagem depende da coordenação entre todas as peças que a compõem. Não é necessário ser um Engenheiro Mecânico para perceber que, quando uma dessas peças, independentemente da função que desempenha, apresenta algum problema, todo o conjunto invariavelmente será prejudicado. A peça defeituosa é submetida a uma análise. Verifica-se, então, a necessidade de retificá-la ou substituí-la. As peças adjacentes não sofrerão nenhuma intervenção, a não ser em caso de comprometimento, em prejuízo daquelas já avariadas.
A engrenagem chamada educação é formada por várias peças, quais sejam: alunos, professores, coordenação pedagógica, administração, estrutura física, recursos tecnológicos e família. Cada peça dessa possui sua importância, sua função. E, muito embora essa "engrenagem" apresente um caráter subjetivo, a grande diferença encontra-se na maneira como uma eventual pane é resolvida.
Enquanto nas engrenagens comuns a peça problemática é a que será analisada, na engrenagem educação, a peça defeituosa já é apontada instantaneamente: o professor! É triste, mas é real. Quem trabalha nessa área certamente já ouviu alguém dizer: "Vocês, professores, precisam criar novas estratégias" ou "Os professores tem a obrigação de despertar no aluno o interesse pelos estudos" ou, ainda, "Os professores são responsáveis por aqueles alunos que não obtiverem sucesso na vida". Parece que a única peça passível de apresentar problema é o professor. Que absurdo! E as outras peças? E as escolas sem nenhuma estrutura? E a coordenação pedagógica que, ao invés de orientar e trabalhar com os professores, limita-se a colocar alunos de volta na sala? E a família, que já incutiu em seus filhos opiniões e valores em descordo com as regras de bom convívio social? E os recursos tecnológicos ainda escassos em pleno século da tecnologia? E a gestão escolar, sem autonomia para resolver os problemas disciplinares que acontecem? E os alunos? Será que essa peça, a principal da engrenagem, não é suscetível a problemas? Será que os alunos são peças infalíveis? Obviamente, não.
Os alunos são, reconhecidamente, os atores principais da educação, as peças principais da engrenagem educação. Porém, é uma injustiça atribuir unicamente a eles a responsabilidade pelo seu sucesso e isentá-los de culpa quando do seu insucesso.
Seria extremamente positivo se cada peça dessa engrenagem chamada educação fosse analisada. Se as escolas recebessem investimentos pesados em infraestrutura e tecnologia; se os professores, coordenadores pedagógicos e gestores escolares fossem capacitados continuamente; se a famílias recebessem apoio psicossocial; se os alunos, enfim, tivessem um acompanhamento do poder público fora da escola também. Pois, como qualquer engrenagem, a educação só funcionará satisfatoriamente a partir do momento em que todas as peças estiverem desenvolvendo seu papel de maneira adequada.


UM ABRAÇO







terça-feira, 4 de dezembro de 2012

SUSPENSÃO SUMÁRIA

"Acho que está havendo uma revolução na 6ª série e me parece que vocês são os cabeças!". Foi assim que o diretor iniciou uma conversa comigo e alguns alunos, antes de decretar a sentença: dez dias de suspensão.
Isso aconteceu no distante ano de 1990. Eu era um garoto tímido. Nunca gostei de bagunça na sala de aula, apesar de confessar que adorava quando os colegas pegavam no pé de um professor chato ou quando eles faziam coisas pouco ortodoxas durante a aula.
No dia dos fatos, as coisas corriam normalmente. Na hora do intervalo, um amigo e eu tivemos a brilhante ideia de voltar à sala e colocar uns bilhetinhos de amor no cadernos das meninas - disfarçadamente, claro! De repente, entram cerca de quatro colegas correndo na sala, num tipo de brigadeira (briga + brincadeira) que resultou em duas cadeiras quebradas e um barulho tal qual o estampido de uma bomba atômica. O ruído foi suficiente para despertar o faro investigativo do Inspetor da escola. Ele, por sua vez, acionou o líder da turma, dando-lhe a tarefa de dizer os alunos que estavam dentro da sala na hora do ocorrido. Sem hesitar, o alcaguete de marca maior levou a relação ao Inspetor que a repassou ao diretor. 
O diretor era um homem alto, muito alto, com uma protuberância no rosto diretamente proporcional à sua altura - que vamos chamar de nariz - e magro. Ostentava um bigode cuja função era impor respeito aos alunos e às vezes ficar sujo de sopa. Dogmático, sempre dava a palavra final em todos os assuntos e, em muitos casos, nem deixava os outros falarem.
Na sua sala, não foi diferente. Ninguém teve a oportunidade de falar. O direito do contraditório e da ampla defesa, assegurados na Constituição Federal, não nos foi garantido. Os membros dos Direitos Humanos não deram a mínima importância para a nossa situação. 
E depois da homilia, cheia de frases de efeito e ameaças, ele proferiu a sentença, a qual já é conhecida dos caros leitores. No primeiro momento, eu fiquei destruído. Afinal, eu nunca havia sido admoestado sequer por um professor. Mas depois, eu relaxei. Aproveitei aquelas duas semanas de férias forçadas para jogar futebol na rua e brincar de Polícia e Ladrão, coisas que até então só havia feito durante o dia.

Um abraço

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

CUIDADO COM A PORTA!

Era o meu primeiro dia de aula naquela escola. O local era muito aprazível, repleto de pessoas atenciosas, agradáveis e competentes. Os alunos, curiosos, observavam aquele rapaz forte e destemido (ísso mesmo, eu!), e perguntavam uns aos outros se seria aquele seu novo professor...
Tudo corria bem. Passei em duas salas antes do intervalo. Lanchei juntamente com os demais professores e depois fui ao banheiro. Para quê?!?!
Bem, a intenção era escovar os dentes. Porém, havia um porta na entrada do banheiro. Na entrada do banheiro, havia uma porta. E não era uma porta qualquer! Era uma porta sacana. Daquelas que gostam de emperrar e deixar os desavisados presos. Foi o que aconteceu.
Subitamente, eu estava naquele cubículo sem poder sair. Olhei para um lado e vi uma vassoura. Do outro, havia um cesto de papel e perto de mim um balde. "Se pelo menos o MacGyver estivesse aqui!". Resolvi, então, forçar a porta. Ela nem mexia.
O tempo foi passando. Eu comecei a suar. Minhas pernas ficaram sem forças. Deu vontade de chorar, de gritar, de evacuar, de escalar as paredes, de derrubar a porta. "Mas se eu fizer isso no primeiro dia de aula, vão falar que eu sou louco", pensei.
Para aumentar meu desespero, o sinal avisou o fim do intervalo. E agora? Aos poucos, a diretora da escola e outros funcionários sentiram a minha falta e começaram a procurar-me na escola sem obter êxito, obviamente. Àquela altura, eles estavam preocupados com meu sumiço. Uns queriam chamar a polícia. Outros, o corpo de bombeiros. Outros, ainda, queriam usar os seus contatos com o FBI para iniciar as investigações. Mas eu continuava lá, olhando aquela maldita porta.
Nesse momento, percebi um ponto fraco dela: uma fresta. Passei a, como diria a filósofa mamãe, brechar. Vislumbrei um garoto sentado numa mureta, a aproximadamente um metro de distância da porta.
-"Ei, menino! Psiu, me ajuda. Empurra a porta. Tô preso aqui!".
O menino ouvia, mas parecia não estar acreditando. Enquanto eu falava, ele aproximava-se da porta, olhava e não fazia nada. Não movia uma palha.
-"Menino, tô preso no banheiro.  Empurra a porta, tá emperrada."
Para minha surpresa, o menino saiu. Eu fiquei desesperado. Mas quando tudo parecia perdido, chegou o vigilante, avisado pelo menino, e abriu a porta. Foi um grande alívio.
Quando eu saí, uma multidão me aguardava. E o vigilante aproximou-se meio desconfiado e disse:
-"Cuidado. A porta emperra."
-"É mesmo? Bem que eu desconfiei!".

Um abraço

terça-feira, 27 de novembro de 2012

CONTEÚDO X FORMA

Era mais uma aula de Português. Inicialmente, a professora deu alguns encaminhamentos sobre o percurso da aula e apresentou o tema daquele dia: o emprego dos PORQUÊS.
Dando andamento à aula, ela problematizou o assunto escrevendo um pequeno texto no qual apareciam as quatro formas do referido termo. E lançou um questionamento à turma:
- Por que será que a palavra "porque" apareceu escrita de quatro formas diferentes?
Como ninguém se manifestou, ela passou a explicar as condições em que cada tipo deveria ser usado. Mostrou trechos de alguns textos, a letra de algumas músicas conhecidas.
Em seguida, ela propôs uma atividade, um exercício de fixação. Combinou com os alunos que eles teriam vinte minutos para responder.
Depois desse período, ela iniciou a correção:
- Pessoal, alguém fez a questão A?
Quase todos ficaram estáticos. Apenas um rapaz oriundo da zona rural da cidade e conhecido pela sua ortoépia e prosódia bastante peculiar levantou a mão.
- Pois não, disse a professora, qual é a resposta da alternativa A?
- Professora, esse aí é APREGADO!
- Apregado?! perguntou a professora.
- Sim, professora, apregado. E, além do mais, com chapeuzinho!
A professora, gentilmente, explicou ao aluno que o termo "apregado", apesar de fazer sentido, não deveria ser usado. Porém, em meio a gargalhadas incessantes da turma, a professora percebeu que às vezes o conteúdo é muito mais importante do que a forma.