segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SER OU ESTAR: EIS A QUESTÃO!

Há cerca de quatro séculos, o grande William Shakespeare escrevia "Hamlet", um dos maiores clássicos da literatura ocidental. Uma história com enfoque existencialista e filosófico, uma reflexão que transcende os limites da retórica e que é amplamente lembrada por aquele célebre sintagma: "ser ou não ser: eis a questão."
Mas, aqui, do lado de fora dos muros do Castelo de Elsinore, esse texto veio à minha memória ao ouvir o discurso de uma pessoa que acabara de ser nomeado diretor de uma escola. Dizia ele com uma firmeza verossímil:
- Eu não sou diretor. Eu estou diretor! 
Essa assertiva provocou em mim, além de certa estranheza, alguns questionamentos. Decerto, eu não quis alternar momentos de loucura real com loucura dissimulada, nem tampouco arquitetar uma vingança. Eu senti apenas a necessidade de analisar o discurso, já que aquela não era a primeira que meus ouvidos eram invadidos por tais palavras.
Considerando o aspecto moral do discurso, é possível perceber uma tentativa de demonstração de humildade. Mas quem disse que humildade é provada com discursos isolados? A humildade precisa ser demonstrada e vivenciada todos os dias, através de atitudes e nas relações com as pessoas com as quais se convive. Ninguém precisa dizer que é humilde. Se alguém o for, as pessoas saberão. Além disso, esse discurso fornece elementos para uma interpretação maliciosa na medida em que aponta para uma fuga das responsabilidades, como se não existisse o desejo de assumi-las.
Conceitualmente, a diferenciação proposta entre os verbos ser e estar é uma questão fundamentalmente linguística. Em que pese essa dualidade de sentidos em português, na língua inglesa - idioma original da obra shakespeariana - existe apenas um verbo para indicar as duas situações. Assim, a diferença existe, mas não é tão considerável como imaginam as pessoas simpáticas a essa ideia.
Por fim, levando em consideração os aspectos práticos desse discurso, percebe-se facilmente toda a sua superficialidade. Nunca vi, por exemplo, um pai que quer resolver um problema do seu filho, chegar na escola e perguntar: 
- Quem está diretor dessa escola?
Isso não acontece porque, na prática, enquanto alguém está, esse alguém é. Eu entenderia se a pessoa nomeada já assumisse o cargo sabendo que ficaria uma semana ou quinze dias. Nessa situação, o discurso do "eu não sou, eu estou" faria algum sentido. A não ser nessa hipótese, esse discurso é uma grande falácia.
A pessoa que assume um cargo de diretoria de escola precisa incorporar sua função. Precisa tentar exercer sua liderança sem, evidentemente, violar os princípios da gestão democrática. Precisa chamar para si a responsabilidade de gerir a escola em seus aspectos sociais, pedagógicos e administrativos. Esconder-se atrás de um discurso vazio de humildade é apenas uma maneira de encobrir uma eventual falta de preparo.


Um abraço! 

sábado, 6 de setembro de 2014

PLANEJAR É PRECISO!

O título desse texto  não é uma mera paráfrase da famosa declaração dos navegadores portugueses e que dá nome a um célebre poema de Fernando Pessoa. Essa assertiva me ocorreu porque, em todas as áreas da vida, o planejamento é um aspecto imprescindível. Desde ações mais simples como a compra de um bem até decisões mais complexas como a chegada de filhos, o ato de planejar garante mais segurança no sentido de que tudo acontecerá dentro dos limites do esperado. Na educação não é diferente. Não pode ser diferente. Antes de um aula ou da aplicação das atividades, o planejamento torna-se um instrumento indispensável à consecução dos objetivos pré-estabelecidos. Mesmo assim, ainda há muitas pessoas da área que insistem em desprezar tal hábito.
Certo dia, enquanto eu aguardava ansiosamente o sinal da sirene indicando o intervalo, um grupo de pessoas, liderado pela diretora da escola e tentando fazer o menor barulho possível, carregava freneticamente cadeiras pelo corredor do prédio. Os professores, curiosos, tentavam descobrir do que se tratava, já que nada havia sido comunicado.
Observando discretamente através da porta entreaberta, eu conseguia vislumbrar um corredor repleto de cadeiras, uma tela de projeção com notebook e data show devidamente instalados. As últimas cadeiras sendo colocadas. A diretora num vaivém sem fim.
- O que vai acontecer aqui?, eu me perguntava. Os alunos, com semblante de dúvida, formulavam as mais mirabolantes possibilidades. Os colegas professores não sabiam responder às indagações de seus alunos.
Algumas hipóteses surgiam inevitavelmente. Poderia se tratar de uma palestra educativa, um filme relacionado com algum tema educacional, um simples teste técnico de equipamentos recém-adquiridos, uma homenagem...
O clima era de expectativa e curiosidade. De repente, a idealizadora do momento segura o microfone e anuncia a atração:
- Pessoal, boa tarde. Eu preparei essa atividade com muito carinho para vocês. Espero que gostem.
Virando-se, apertou um botão e um vídeo começou a ser exibido. Para a alegria dos alunos e para minha tristeza e estupefação, o vídeo, acreditem, era o famoso "Para Nossa Alegria", que na época estava no auge.
- Isso não é possível!, pensei, em meio a gritos de delírios dos alunos, que enchiam a diretora de orgulho. Era como se ela tivesse feito algo digno de reconhecimento. 
Eu e outros colegas não conseguimos presenciar aquela bizarrice até o final. Eu saí e fui preparar-me espiritualmente pois eu sabia que acalmar os alunos depois do intervalo não era uma tarefa das mais simples. Naquele dia, especialmente, seria tão fácil como encontrar uma agulha no palheiro.
Um episódio dessa natureza, sem nenhuma relevância didático-pedagógica, sem nenhum planejamento e sem objetivos em relação à aprendizagem, além de mostrar o amadorismo com que se dirige a educação pública, serve como exemplo de (indi)gestão escolar, que não se comunica, não interage e, sobretudo, não planeja. O que aconteceu na escola depois dessa "atividade" é assunto para outra ocasião, mas eu não desejaria ao meu pior inimigo que ele assumisse as turmas nas duas últimas duas aulas daquele dia.


Um abraço!  

quarta-feira, 30 de julho de 2014

DESCONCENTRAÇÃO II

Eu já sou professor de Inglês há cerca de treze anos e à medida que o tempo passa, tenho mais certeza de que um dos principais entraves da aprendizagem é o flagrante déficit de concentração dos alunos. É como se  os estudantes, em sua grande maioria, não observassem o que veem e não entendessem o que leem. Essa impressão ganhou ainda mais robustez depois de uma aula recente.
Eu entrei normalmente na sala. Cumprimentei as dez testemunhas presentes à aula, fiz a chamada, dei algumas orientações e comecei a falar sobre o conteúdo para explorar os conhecimentos prévios dos alunos em relação ao tema. Em seguida, fui até a lousa para escrever uma tabela com subject e object pronouns. O quadro era dividido em duas partes: o lado em que escrevi, usando um marcador azul, era branco e o outro, negro, ainda repleto de atividades do turno vespertino, pois a professora não havia se dignado a apagar o que ela escrevera.
Cerca de vinte minutos depois, chegou mais uma testemunha, digo, aluna. Atrasada, ela tentou recuperar o tempo perdido e prontamente sacou seu caderno e canetas e começou a escrever. Ocorre que, da posição onde eu me encontrava, via claramente que ela não estava olhando em direção ao que eu tinha escrito. Instintivamente, resolvi me aproximar e para minha surpresa, a menina já estava quase acabando. Acabando de copiar a atividade. Mas não a minha atividade. A do lado negro do quadro. Escrita com giz.
Aqueles que gostam de sair em defesa dos pobres e oprimidos podem levantar-se e arrazoar:
- Ora, isso não é nada demais. Ela só escreveu a atividade errada porque chegou atrasada.
A princípio, esta parece uma desculpa plausível, mas não é. Não é porque professores de Inglês não costumam passar atividades de circular as letrinhas maiúsculas e sublinhar as minúsculas; não gostam de atividades de formar as sílabas da família do B; nem acham interessantes aquelas em que o aluno deve escrever por cima de uma linha tracejada. Acreditem ou não, foi isso o que ela escreveu. Considerando que se tratava de uma aula de Inglês, qualquer desculpa é absurda.
Enquanto os outros alunos choravam de tanto sorrir e a menina enrubescia de vergonha, eu não sabia se sorria ou se chorava. Era um turbilhão de sentimentos dentro de mim: impotência, perplexidade, preocupação...
Depois de alguns dias de reflexão, resolvi montar um guia completo de sobrevivência nas aulas de Inglês destinado a esse tipo de aluno - desconcentrado. Eis a versão simplificada:
1º Sempre procure saber de qual disciplina é a aula;
2º Observe o professor e preste atenção em que tipo de objeto ele usa para escrever (nem o maior dos falsificadores conseguiria imitar giz usando marcadores de quadro branco);
3º Fique atento à língua em que as palavras estão escritas, pois Português é diferente de Inglês;
4º Lembre-se de que letras masculinas são diferentes das femininas;
5º Se, depois de tudo isso, você ainda tiver dúvidas, chame o professor e pergunte.

Um abraço!
  

sábado, 21 de junho de 2014

Em 1996, o governo brasileiro publicou a Lei 9394 - a LDB. Por um lado, isso representa um marco, um avanço sem precedentes no trato com a educação pública no Brasil. Por outro, alguns problemas surgiram. Um deles, especificamente, abordava a situação dos professores que atuavam no magistério sem formação superior. De uma hora para outra, aqueles profissionais que, em muitos casos, eram arremessados numa sala de aula pelos chefes do executivo de suas localidades viam-se obrigados a ter um curso superior. Ocorre que muitos deles não teriam condições - nem físicas, nem psicológicas - de concorrer a uma vaga em um banco de universidade com jovens recém-saídos do ensino médio. Contudo, é sempre bom lembrar que nós estamos no Brasil e, num passe de mágica, o governo resolve credenciar instituições de ensino superior a torto e a direito para formar os profissionais e equacionar o problema. Com isso, a formação dos professores foi seriamente afetada (mas isso é assunto para outra oportunidade). Para ilustrar essa problemática, passo a relatar uma situação bastante cômica, ou trágica, dependendo do viés do amigo leitor.
Não são raras as vezes em que alguém com dificuldades acadêmicas recorre a amigos e familiares ou, até mesmo, fazem uso de seus recursos pecuniários para ter uma determinada atividade de seu curso feita. Foi o que aconteceu comigo. Uma pessoa a qual já enveredava nos caminhos da educação havia muito tempo, sempre em cargos de chefia, aproximou-se e começou a conversar, contando suas aventuras discentes. Lá pelas tantas, ela resolveu desembuchar:
- Rapaz, eu tô precisando fazer um trabalho, mas nem sei por onde começar!, disse.
Um pouco atônito e tentando esconder minha surpresa, perguntei:
- Sobre o quê?
- Pedagogia.
- Mas o que exatamente? Pedagogia tradicional? Escola Nova? Algum autor específico?
- Não, não. É sobre um... ator famoso ou cantor... pera aí que vou pegar o nome dele no carro.
Foram dois minutos de espera e muita, mas muita curiosidade. Pensei: "Ator?!?! Como assim? Cantor?!?! Que danado de trabalho é esse?"
Quando a pessoa voltou, com um livro na mão, tentando dizer o nome do tal "ator", eu entendi tudo:
- Pi...a...géte! Acho que é assim que se fala.
- Piaget! pronunciei secamente. Não posso fazer esse trabalho. 
- Por quê?, perguntou.
- Não gosto muito dos filmes nem das músicas dele!, respondi.
Antes que a pessoa pudesse dizer qualquer coisa, fui embora sem sequer me despedir. Eu não sabia se sorria ou se chorava. Como é que pode? Um pedagogo ou estudante de pedagogia ou qualquer pessoa que vive no meio da educação não saber quem é Piaget é o mesmo que ser meu aluno e não saber que eu tenho um blogue! É o mesmo que ser um cantor de forró e não saber quem é Luiz Gonzaga! É o mesmo que brincar no bloco dos Índios e não saber quem é Caçopa!

Um abraço!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

BOMBA DE EFEITO RETARDADO

Diz-se de bomba de efeito retardado o artefato bélico que, lançado em determinada superfície, necessita de um espaço de tempo para produzir seus efeitos. Um bebê inesperado pode ser considerado um bom exemplo. Mas, por que raios eu estaria falando sobre isso neste ambiente educacional? Vou explicar.
Um dia desses, um aluno chegou à sala da direção da escola bastante pálido - como se tivesse visto um fantasma, tremendo, suando, contorcendo-se todo e com um das mãos imediatamente sobre sua barriga (bucho, diriam aqueles que o tivessem visto). Naquele momento, a pressa para chegar em casa foi mais forte do que a curiosidade que aquela cena despertava em mim. Assim fui embora tranquilamente. Lembro-me que, ao chegar no portão de saída, ouvi um estrondo, como se fosse um estampido de uma bomba, mas, cansado, não voltei. No dia seguinte, não fui à escola pois tratava-se de um feriado estadual. A imagem do menino empalidecido, contudo, não saía da minha cabeça. "O que teria acontecido para deixar o aluno daquele jeito?". 
Pois bem, dois dias depois de presenciar tão emblemática cena, eu estava de volta às atividades escolares rotineiras. Na hora do intervalo, entretanto, as coisas não estavam normais: barulho de martelo, carros de mão para lá e para cá, máscaras de oxigênio, tubulações de pvc sendo transportadas, cimento e britadeiras, tudo convergindo para o mesmo lugar: o banheiro dos professores.
- O que está acontecendo?, pensei.
Incomodado com o barulho e com um misto de curiosidade e preocupação, fui averiguar. Ao chegar, vi que havia um pedreiro e um ajudante no interior do banheiro, próximo ao vaso sanitário, quase desmaiados. A diretora aproximou-se de mim e disse:
- Relaxa. Vou te contar o que houve. E começou: sabe o aluno tal, que chegou aqui anteontem pálido...
- Sei. O que foi?
- Ele pediu para usar o banheiro dos professores, pois o banheiro dos alunos estava sem papel. Eu permiti. Ele lançou um míssil - era um SCUD, o mesmo tipo que o Iraque usou contra os Estados Unidos na guerra do Golfo, em 1991 - e as tubulações estão entupidas. 
Dizem que o "míssil" era enorme, espesso, enegrecido e quase indestrutível - até britadeiras foram usadas, sem êxito, para tentar fragmentá-lo.
É bem verdade que talvez você não esteja vendo relação entre o título do texto e os eventos narrados. Mas essa relação se estabelece a partir do momento em que o míssil só foi descoberto no dia seguinte, quando a outra turma da limpeza chegou. A demora em encontrar o artefato acabou por produzir um efeito muito maior do que o normal, caso tivesse sido detectado logo após o lançamento.
Quando fui embora nesse dia, observei uma cena interessante: o pedreiro, com o vaso sanitário suspenso (lembrava aquele rapaz do Olodum), tentando retirar os resquícios do míssil. Ao que parece, ele conseguiu.

Um abraço.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

NÃO ASSASSINE O PORTUGUÊS!

Nada é tão ruim que não se possa piorar. O pressuposto trazido nesse adágio popular é facilmente empregado em qualquer ambiente, inclusive na língua. Isso porque, depois do arrefecimento de um processo linguístico denominado gerundismo - o uso excessivo e desnecessário do gerúndio, que deu origem a frases do tipo "eu vou estar verificando..." ou "nós vamos estar fazendo...", surge um outro fenômeno ao qual eu resolvi chamar de subversão de particípio. Nomenclatura complicada? Talvez. Mas isso ilustra bem a questão.
Inicialmente, eu ouvi alguém dizendo: "Se eu soubesse, eu teria trago a carne." Bem, a forma "trago" existe, entretanto equivale à primeira pessoa do presente do indicativo do verbo trazer (ou tragar, que não vem ao caso), e definitivamente não é particípio. O correto seria: "...eu teria trazido a carne." Isso mesmo: trazido. O verbo trazer tem apenas uma forma para o particípio.
Além disso, eu tenho um cunhado que adora dizer: "Você deveria ter falo isso pra mim!" Ora, a forma "falo" também pertence à primeira pessoa do presente do indicativo. O particípio do verbo falar é falado. Simples assim. Por que então complicar o negócio? Isso não só é um equívoco gramatical como também denota uma feiura extrema, que faria Olavo Bilac se contorcer no túmulo.
Mas o pior é que pessoas com formação superior também fazem uso desse tipo de construção. Dia desses, uma pessoa soltou: "Eu deveria ter peço ajuda!" Peço?!?! Horrível! 
Eu quero deixar claro que não sou paranoico em relação ao uso da língua. Numa conversa informal, sempre há deslizes ou emprego de termos, digamos, menos eruditos, mas "...ter peço" é uma afronta. E o pior é que as pessoas que falam assim acham que estão na vanguarda linguística e consideram assassinos do português aqueles que eventualmente disserem "...ter pedido" numa oração análoga.
Apenas a título de esclarecimento, há verbos chamados abundantes que admitem dois particípios - o sintético e o analítico. Um exemplo é o verbo expulsar. Dependendo do verbo auxiliar com o qual ele se relaciona é possível dizer expulso ou expulsado. Observe as orações: "O jogador foi expulso ainda no primeiro tempo" e "Ainda no primeiro tempo, o juiz já tinha expulsado três jogadores". Na primeira oração, o verbo expulsar se relaciona com o auxilar SER e portanto pede o particípio sintético (curto). O mesmo ocorreria se o auxiliar fosse o verbo ESTAR. Por outro lado, na segunda oração, o auxiliar é TER. Nesse caso, o particípio deve ser analítico (longo). Da mesma forma aconteceria se o auxiliar fosse o verbo HAVER.
Eu não sou preciosista no tocante ao uso da língua e tampouco acho que a estética do palavreado deve ser mais importante do que o conteúdo ou a informação apresentada - como se pode ver no parnasianismo, mas é preciso combater esses insultos à nossa língua materna ou do contrário, nós, que já nos cansamos de estar ouvindo gerúndio depois de gerúndio, ouviremos: eu já tinha ouço isso" ou "eles deveriam ter compro outra casa". Não é isso que queremos. Vamos respeitar nossa língua, pois ela é nossa identidade, nosso tesouro social.

Um abraço.

sábado, 26 de outubro de 2013

A sala de aula é um ambiente extremamente heterogêneo. De um lado, estão aqueles alunos em estado de inércia, que são incapazes de questionar, de problematizar, de discordar do professor ainda que este afirme que as paredes da escola são feitas de ovos, farinha de trigo e um pouco de canela para dar um sabor especial. De outro, existem alunos curiosos, irrequietos, que sempre estão em busca dos porquês. Pois bem, um dia uma aluna me interrompeu para fazer um questionamento muito pertinente:
- "Professor, eu gostaria de saber o porquê de não conseguir aprender nada de Inglês, sendo que já estou na 2ª série do ensino médio!"
Naquele momento, confesso que fui pego de surpresa. Não esperava aquela pergunta. E, como não tinha uma resposta pronta, saí pela tangente começando a elogiar a menina:
- "Parabéns pela pergunta. É isso o que vocês devem fazer! Perguntar, indagar."
Parece pouco, mas esse foi o tempo suficiente para eu formular uma resposta, no mínimo, convincente.
- "Você quer aprender, você precisa aprender ou seria bom se você aprendesse Inglês?", repliquei.
- "Quero aprender!", respondeu enfaticamente.
- "Diga-me", continuei, "há quantos anos você estuda Inglês?"
- "Há uns seis anos", respondeu a aluna.
- "E quantas palavras você sabe em Inglês? Pode ser uma estimativa", completei.
- "Acho que umas vinte."
- "Bom, então vamos fazer uma conta rápida. Você estuda Inglês há seis anos e sabe cerca de vinte palavras. Isso significa que você está aprendendo o vocabulário numa impressionante velocidade de três palavras por ano. Partindo do pressuposto que são necessárias cerca de três mil palavras para você se comunicar perfeitamente em Inglês, você precisará ser uma espécie de Matusalém, ou seja, viver cerca de mil anos. Será que você quer realmente aprender?"
A turma ficou em silêncio. A menina olhou para mim, desconfiada. Eu tinha sido muito objetivo e pragmático. Com um pouco de sentimento de culpa, expliquei para ela que todos os dias eu precisava pegar um dicionário para aprender novas palavras e que sem acúmulo de vocabulário ninguém jamais poderia colocar em prática a fala em uma determinada língua.
Ela percebeu que eu tinha razão. Depois da aula, ela me procurou e conversamos muito acerca disso. Expliquei que o estudo contínuo e sistemático é necessário para quem quer aprender algo e isso é válido para qualquer coisa: matemática, falar outro idioma, andar de bicicleta ou até mesmo fazer um bolo de ovos com canela.


Um abraço!