quarta-feira, 15 de agosto de 2012

QUE QUALIDADE?

Ano após ano, o resultado do IDEB mostra-se desanimador. Muito embora esse índice apresente alguma melhora, o Brasil ainda está muito atrás dos países considerados desenvolvidos quando o assunto é a qualidade da educação. E o problema é exatamente este: a qualidade.
Não é difícil encontrar gestores públicos, intelectuais e teóricos da pedagogia defendendo a importância da qualidade da educação. Entretanto, a legislação brasileira enfatiza muito mais a quantidade.
Os índices de reprovação caíram vertiginosamente nos últimos anos. Mas o que poderia ser um aspecto positivo na busca pela tão sonhada qualidade, nada mais é do que o resultado de uma política de mitigação de critérios no sentido de garantir ao estudante a progressão, independentemente de considerar suas habilidades e competências. Nos dias de hoje, um indivíduo só é reprovado se ele for quase um heroi às avessas. Em consequência disso, o aluno chega no ensino médio, por exemplo, sem saber ler direito, determinando assim, a queda dos níveis de debate em torno de conteúdos e do próprio conhecimento de mundo da turma.
Nos anos iniciais, entre o 1º e 3º anos, existe a progressão compulsória ou automática. Isso significa que qualquer aluno, alfabetizado ou não, será arremessado numa turma de 4º ano e o professor terá que fazer das tripas coração para dar aulas a uma turma cuja heterogeneidade cognitiva está muito além dos limites da normalidade. Isso é qualidade? Isso é preocupação com a qualidade do ensino? Absolutamente! Isso é quantidade. Isso é maquiar os fatos.
A escola precisa exigir dos alunos compromisso em aprender. Precisa avaliar sem nenhum tipo de facilitação. Precisa mostrar que educação é coisa séria, sem a qual o sucesso de alguém é improvável. Será que aprovar alunos em massa sem que eles demonstrem capacidades para tanto é mais justo do que exigir deles uma mudança de comportamento frente aos estudos? Definitivamente, não.
Assim, a busca pela qualidade do ensino passa invariavelmente por uma mudança nesse sistema controverso verificado no Brasil inteiro. Senão, daqui a alguns anos, nós teremos indivíduos com nível superior sem saber ler e escrever.


Um abraço.



sexta-feira, 1 de junho de 2012

A PRIMEIRA VEZ A GENTE NUNCA ESQUECE...

Estávamos no longínquo ano de 1998. Eu, aos dezenove, ainda me sentia muito jovem para aquilo. Eu fazia as minhas introspecções e percebia que estava hesitante, inseguro, talvez despreparado para a minha primeira vez! De vez em quando, eu recorria a algum amigo para ter algumas dúvidas dirimidas, porém enquanto uns diziam ser algo tranquilo, outros afirmavam categoricamente que eu deveria me preparar muito para nada dar errado.
Mas como não podia ser diferente, a hora tinha chegado. E nos dias que antecederam os fatos propriamente ditos, eu me preparei. Muito. Não pensava em outra coisa. Tudo na minha vida girava em torno daquilo: "Isso deve acontecer com todo mundo", imaginava eu.
Dúvidas e indagações surgiam recorrentemente. "Será que eu devo dizer isto?", "Será que eu posso fazer assim?", "Será que vai demorar ou vai passar rápido?". Essas perguntas estavam me consumindo. Felizmente, como diria Cazuza, "o tempo não para" e o grande dia chegou.
Antes, porém, de entrar no local, eu estava confiante pois haviam sido dias e dias de preparação e idealização. O problema é que ao chegar, ela já estava lá. Cabelos presos, batom vermelho, calça apertada e com aquele olhar... Como resultado, toda aquela preparação tinha sido esquecida: a maneira como eu ia chegar, o que eu ia falar, tudo fora consumido pelo nervosismo. Subitamente, comecei a suar - parecia uma tampa de chaleira, encostei-me na parede e comecei a balbuciar algumas palavras - desconexas, é verdade - que ainda lembrava. Essa situação parecia irreal. Até então, eu não conseguia imaginar como seria olhar para ela de tão perto. Linda, ela olhava para mim esperando alguma atitude. E eu, bem, eu agi: peguei o meu livro e comecei a explicar todo o programa de conteúdos para aquela série.
Essa foi a primeira vez que eu entrei numa sala de aula. Com relação a "ela", confesso que "ficamos" umas três ou quatro vezes, mas como ela era apaixonada por outro, paramos por aí.

Um Abraço

quarta-feira, 16 de maio de 2012

DILEMAS DA HUMANIDADE

De onde viemos? Para onde vamos? Dilemas como estes sempre inquietam desde pessoas comuns até os mais renomados cientistas. São dúvidas, questionamentos e perguntas que caracterizam a existência da humanidade. Mas existe uma indagação ainda mais complexa - os professores de Inglês hão de concordar comigo - que é a boa e velha pergunta: "Como é meu nome em Inglês?".
Com a esperança de responder a essa questão de uma vez por todas, os professores falam, explicam, mostram por "A+B" que alguns nomes possuem correspondentes em outras línguas, enquanto outros, não! Mesmo assim, ao final da explicação, o indivíduo pergunta: "Mas professor, como é meu nome em Inglês?".
É muito difícil explicar para alguém chamado FRANCISCLEIDSON, por exemplo, que seu nome é fruto da imaginação por demais fértil dos seus pais, os quais resolveram juntar FRANCISCO, CLEITON e EDSON e o resultado foi essa bizarrice e que esse tipo de artifício é comum em algumas partes do Brasil, resultando em nomes totalmente incomuns.
Outro dia, uma menina chamada CREMILDA queria veementemente saber seu nome em Inglês. Ponderei que não conhecia um correspondente em outras línguas para um nome tão, digamos, peculiar. Mas, como sempre, não a convenci.
E, no meio da conversa, um aluno levanta-se e pergunta:
- Professor, como se diz "preá" em Inglês?
Eu, impaciente por não resolver aquele embrólio, respondi:
- Preá em Inglês é rato-cachorro!!!!
Todos ficaram em silêncio, desconfiados, céticos. Pelo menos, o assunto encerrou-se e eu tive a sensação de dever cumprido nem que seja até a próxima vez em que algum aluno fizer aquela pergunta: "Professor, como é meu nome em Inglês?".




Um Abraço

sábado, 12 de maio de 2012

(DES)CONCENTRAÇÃO


S/I à SEM INTERVALO


Você deve estar se perguntando o que eu quero dizer com isso, não é? Pois bem, explico.
Um dia desses, ao entrar na sala de aula do 8º ano do ensino fundamental, percebi um aluno recostado ao birô, próximo à parede lateral da sala, com a mão na fronte - isso me fez lembrar do "Pensador" de Rodin -  perto do quadro, observando atentamente uma espécie de cartaz cuja função era descrever a rotina escolar dos alunos do turno vespertino.
E, enquanto eu cumprimentava a turma, ele continuava lá. Insistentemente observando aquelas informações. De repente, eu ouvi alguém chamando meu nome: era ele.
-" Professor, venha aqui por favor."
-" Pois não", respondi solicitamente.
E ele, com o dedo apontando para aquela sigla - S/I - cuja representação está no início do texto, perguntou:
- "O que quer dizer isso?"
Nesse momento, eu fiquei sem saber o que fazer. Estupefato com tamanho absurdo, não conseguia acreditar que ele havia me perguntado aquilo. Ele não percebera que existia uma legenda dando conta do significado da sigla e, pior, não entendera que havia uma SETA indicando, apontando para esse significado!
Eu fiquei imaginando o que o simbologista Robert Langdom - aquele mesmo do livro O Código Da Vinci - diria naquele momento. Será que ele seria capaz de decifrar essa sigla?
O que me traz algum alento é o fato de o aluno não ter dito que S/I quer dizer SI...
Esse tipo de absurdo acontece mais frequentemente do que podemos supor. Uma parcela considerável dos alunos conseguem ler, mas não são capazes de interpretar, de entender aquilo que leram. E isso se deve ao déficit de concentração desses alunos. Ler não é apenas decodificar. Ler é, sobretudo, interpretar. Infelizmente, poucos conseguem obter essa competência.

Um abraço.

sábado, 28 de abril de 2012

REDAÇÃO DE PORTUGUÊS



 Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingênua, silábica, um pouco átona. O contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu esse pequeno índice.
De repente, o elevador para, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo. Mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e para justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato cm gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial e rapidamente chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos diziam que iam terminar num transitivo direto. Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentido seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula que nem um período simples passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras. Estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois gêneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez: ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular. Ela um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentido o seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso, a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuada edição tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios o seu particípio na história.
Os dois se olharam e viram que isso era melhor do uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontando para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.

Autor Desconhecido

Um abraço

sábado, 14 de abril de 2012

AS APARÊNCIAS ENGANAM

O primeiro super-herói da minha vida surgiu ainda quando eu estudava na 3ª série do primeiro grau - hoje, 3º ano do fundamental menor. Era um colega de turma cujo nome não publicarei, para não ter problemas com direitos autorais ou coisas do gênero.
Naquela época, nada no mundo poderia me convencer a tomar um banho logo cedinho, antes da aula. Isso porque havia algo imbatível e insuperável: o frio. No máximo, eu conseguia lavar os pés!
Mas havia alguém, que para mim, tinha superpoderes. Ele conseguia fazer algo que estava além das minhas forças: todos os dias ele chegava com o cabelo bem molhadinho, o que, para mim, era prova irrefutável de que ele tomava banho logo cedo.
Eu ficava pensando: esse cara é mesmo demais. Num frio desses, ele ainda toma banho! E a cada dia que ele chegava de cabelos molhados, minha admiração e um pouco de inveja cresciam.
Um dia, contudo, no caminho para a escola, encontrei um outro colega de classe. Ele me chamou para irmos na casa desse meu herói pueril a fim de chamá-lo para a aula.
Sua mãe estava varrendo a calçada da casa e nos disse para entrar. Nós entramos e para minha tristeza, eu me deparei com aquela cena ridícula: o menino, meu herói, estava com a cabeça enfiada num alguidar, molhando os cabelos. E só! Sabe quantas vezes ele tomava banho? NENHUMA!
Depois daquilo, eu passei a sentir um misto de alívio - outros também não tomavam banho antes da aula - e decepção - meu primeiro super-herói era uma farsa. 
A grande lição para minha vida é que nem tudo o que parece ser, é.


Um Abraço

sábado, 31 de março de 2012

PERFUME FRANCÊS

Durante quase 12 anos de sala de aula, eu já testemunhei muitas iniciativas, digamos, politicamente incorretas tomadas pelos alunos. Palavras do mais baixo calão transformadas em pronomes de tratamento, cadeiras e mesas usadas como objetos diretos - para acertar alguém, desinteresse crescendo em progressão geométrica. Houve também um caso em que uma menina empurrou a cabeça da colega dentro da privada, talvez para descobrir como se mede o volume de um sólido geométrico irregular. Contudo, isso não foi o mais grave.
Certo dia, depois que a sirene da escola tocou, decretando o término do intervalo, eu voltei para a sala. Não era qualquer sala! Era aquela! Aquela em que de dez alunos (meninos), oito bagunçavam muito e dois eram mal comportados. E como de costume, os mais responsáveis iam entrando na sala enquanto os outros ainda estavam terminando sua partida de futebol ou sei-lá-o-quê. 
Foi então que um deles, usando de toda a sua crueldade e imaginação, escondeu-se atrás da porta, todo suado, e com um gesto maquiavélico, passou a mão nas axilas (aquilo não eram axilas, eram sovacos) e esperou que os amigos entrassem para iniciar seu ataque: passar a mão, gosmenta e perfumada, no nariz do colegas!
O primeiro a experimentar aqueles odores tóxicos, saiu sem fôlego. O segundo, desmaiou. O terceiro, desavisado, foi o que inalou aquela essência por mais tempo e teve que ser socorrido com sintomas de intoxicação e arritmia.
Mas você deve estar se perguntando o que eu, como professor, fiz nessa situação, não é? Bem, quando começava a arrazoar sobre como iria resolver essa problemática, um odor muito forte - parecia uma mistura de crueira, pólvora, queijo suíço e cavalo suado - já afetara meus neurônios e tudo o que fiz foi evacuar a sala, abrir todas as janelas e proibir a entrada das pessoas por, pelo menos, vinte minutos.
Quando você pensa que já viu de tudo, sempre tem alguém com uma invenção nova.

Um Abraço