terça-feira, 17 de março de 2015

COBRANÇA INDEVIDA

O início do ano é um período marcado pela chegada das dívidas, dos impostos e das obrigações financeiras na casa das pessoas. São cobranças justas uma vez que o cidadão responsável precisa dignar-se a cumprir com seus compromissos. Mas se você for professor e trabalhar numa cidadezinha no meio do nada, onde as Leis que beneficiam os funcionários não são cumpridas e quase ninguém sabe onde fica, o cenário pode piorar bastante. Isso porque, além das dívidas pecuniárias, os professores já iniciam o ano letivo devendo dias de serviço. De acordo com a Secretaria de Educação, os profissionais devem "pagar" cinco sábados letivos no desenrolar de 2015. Eu gostaria de saber o porquê.
A Secretaria arrazoa que os professores tem trinta dias de férias em janeiro e mais quinze em junho, totalizando quarenta e cinco dias, "o que é muito." Além disso, o aluno tem direito a duzentos dias letivos por ano. Como as aulas começaram no início de março, as contas não fecham.
Quanto à argumentação da Secretaria, nada a acrescentar. Porém, eu aprendi no curso da minha vida que nós não devemos cobrar de quem não nos deve. Todos os professores estavam prontos para iniciar suas atividades e assumir suas respectivas salas de aula no primeiro dia de fevereiro. Ocorre que, por falta de estrutura administrativa, física e organizacional, tornava-se impossível inciar as aulas nesse dia. A escola sem as mínimas condições de funcionamento, sem material pedagógico e administrativo: um caos! Dessa forma, de quem é a responsabilidade por isso? Dos professores? Absolutamente! A responsabilidade recai sobre os ombros da Secretaria Municipal de Educação. Não é decente e tampouco justo cobrar dos professores a conta decorrente da falta de planejamento da gestão. E corporativismo à parte, isso se repete ano após ano.
É interessante ressaltar que o calendário das escolas estaduais também tem início no mesmo dia. Entretanto, na rede estadual, não há nenhuma orientação no sentido de "pagar" sábados letivos. Como explicar isso?
A sensação de começar o ano devendo dias letivos vem acompanhada de outros sentimentos angustiantes provenientes do órgão gestor quais sejam a rivalidade com a equipe de professores, a falta de preocupação com os alunos e o abandono das estruturas físicas da escola, que é um verdadeiro desserviço ao andamento das atividades. A preocupação principal é fazer o professor trabalhar mais do que deve, apenas para retaliar e mostrar quem manda.
Graças a Deus, ao meu senso de cidadania e à minha disciplina orçamentária, nunca frequentei os cadastros nacionais de inadimplência ou os sistemas dos órgãos de proteção ao crédito. Contudo, se for o caso, a Secretaria pode incluir o meu nome no SPC ou SERASA, mas eu não vou pagar o que eu não devo. Apenas lembro que, de acordo com o artigo 940 do Código Civil e o artigo 42, parágrafo único, do Código de Defesa do Consumidor, a cobrança indevida deverá ser ressarcida em dobro. Assim, em vez de quarenta e cinco dias de férias, eu posso ter cinquenta e cinco. Abram o olho!


Um abraço!


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

ÓDIO PLATÔNICO

Todas as pessoas já ouviram falar de amor platônico - amor puro que se fundamenta nas virtudes e é desprovido de paixões, deixando de lado os interesses até mesmo sexuais - pelo fato de alguém ter-lhe confidenciado, por ter lido ou assistido sobre o tema, ou ainda, por ter caído nas traiçoeiras garras de tal sentimento. Você, porém, já ouviu falar de ódio platônico?¹ Acredite ou não, esse sentimento existe e é mais comum do que "supõe nossa vã filosofia", sendo as salas de aula o ambiente mais propício para a observação dessa abstração às avessas. E foi nesse ambiente onde eu vi a manifestação do ódio platônico pela primeira vez.
Tudo começou com a chegada de uma nova professora de Português. Além de constantemente afônica, em detrimento de longos anos de esforço vocal, ela era estrábica - vesga, para os menos eruditos. Assim, quando a aula estava demasiadamente "animada", ela sempre gritava, ou pelo menos, tentava gritar, chamando os alunos aos carreteis. O problema é que ela olhava para o norte e nós tínhamos a impressão de que ela estava olhando para o leste, dado o desentrosamento entre seus globos oculares. 
Numa dessas intervenções, um aluno pensou que a professora dirigia uma série de palavras hostis e impropérios a ele, despertando o ódio platônico a que me refiro. A partir desse dia, ele aprontava muitas peripécias: contribuía com o efeito estufa ao liberar gases extremamente tóxicos ao redor da professora, escondia a cadeira da professora em outra sala, roubava a caixinha de giz e, com requintes de crueldade, escondia os óculos da coitada, equipamentos sem os quais ela não andava meio metro sem causar um abalroamento: era uma loucura. 
Como um ser altruísta que sempre fui, eu me preocupava com a professora na mesma proporção em que me divertia. Era uma guerra interna por que passava. Lembro-me de uma vez que a professora, falando sobre plural de substantivos compostos, perguntou:
- Pessoal, qual seria o plural de café da manhã?
- Pão, leite, queijo, manteiga... respondeu o aluno.
A turma inteira começou a sorrir e a professora quase infartou. Eu, segurando o riso, saí e trouxe um copo d'água e dei a ela.
Essa relação conturbada durou quase o ano inteiro. Contudo, as provas finais já se aproximavam e o medo da reprovação era um monstro que assombrava meu amigo. Desse modo, para a surpresa de todos, o aluno decidiu fazer um mea culpa e pediu perdão à professora. Ele assumiu os erros e prometeu não mais repetir suas atitudes irreverentes. Toda a turma, emocionada, aplaudia enquanto aluno e professora se abraçavam fraternalmente. Mas quem odeia platonicamente, experimenta uma inexplicável e incontrolável alternância de sentimentos.
No dia seguinte, quando estávamos indo para a escola, o dito aluno encontrou uma espiga de milho no chão. Não era necessário ser um perito do Instituto de Criminalística do estado de São Paulo, para perceber que alguém, depois de ter dado no máximo duas mordidas no milho, deixou a espiga cair e foi-se embora. O aluno, meticulosamente, limpou a espiga de milho, colocou-a num invólucro improvisado e levou-a consigo. Ao chegar na escola, saiu em direção à professora e fingiu estar comendo. A professora logo cresceu os olhos na espiga (de onde eu estava, tinha a impressão de que ela realmente olhava para a espiga) e ele, sem hesitar, disse:
- "Professora, trouxe para a senhora!"
- "Não precisava", pegando a espiga e mordendo-a instantaneamente. "Só está meio fria!", comentou, antes de agradecer efusivamente.
Depois que a professora afastou-se, olhei para meu amigo e vi em seu rosto uma feição de ódio e, ao mesmo tempo, de prazer. Então, perguntei:
- "Malvado, por que fizeste isso?"
Ele olhou para mim, mas não disse sequer uma palavra. Nos dias que se seguiram, entretanto, correu um boato à boca pequena de que a professora havia tido dias de rainha - se é que vocês me entendem - e como não tinha condições de vir à escola, acabou aprovando todos. De resto, só ficou um comentário do aluno:
- "Da próxima vez, eu vou trazer é uma feijoada, hahahahah!"

¹ Segundo a filosofia Daniliana, é um tipo de sentimento que causa alternância entre o bem e o mal, a beleza e a feiura, a rudeza e a gentileza.




Um abraço!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Depois de quase quinze anos de sala de aula, os professores acumulam experiências, estresses e alunos dos quais nunca se esquecerão. Comigo não é diferente. Há muitos deles irremediavelmente presos à minha memória, em função dos mais variados motivos. A aluna sobre quem tratarei neste texto é objeto de minha profunda admiração. 
Tudo começou durante o recreio de um dia corriqueiro de aula. Ela era, até então, uma aluna normal. Mas naquele dia, as coisas começaram a mudar. Eu estava sentado, como de hábito, no pátio externo da escola. Os alunos num vaivém desordenado e muita falaria. Do outro lado, no corredor, ela vinha se aproximando tranquilamente. De súbito, ela caiu. Entretanto, não foi uma queda normal. Ela simplesmente desabou, como um prédio que é implodido. O interessante é que ela sequer esbarrou em algum objeto, nem tropeçou, nem foi empurrada, nem escorregou, nem teve mal súbito, nem desmaiou. Ela desceu numa trajetória vertical, produzindo um barulho (bufo!). Isso chamou minha atenção: "Essa menina é diferente!", pensei.
Algum tempo depois, minha suspeita foi confirmada. Tratava-se de alguém muito especial. Certo dia, por exemplo, eu estava na frente da escola - que fica próximo à residência da menina - e vi quando ela guiava sua moto em alta velocidade. De repente, ela deu seta para a esquerda, empinou a moto, invadiu a sala de estar de sua casa e estacionou a moto entre o criado mudo e o sofá. Foi impressionante! Minha admiração crescia em progressão geométrica, enquanto ela mostrava o quão especial era. Foi assim no dia em que desdenhou da minha ajuda, na academia, ao carregar uma anilha de 25kg e no dia em que ela bebeu 2ml de corretivo numa "brincadeira" com colegas de sala de aula.
Mas o momento mais emblemático, aquele que elevou minha admiração a níveis estratosféricos, aconteceu algum tempo depois, já em outra escola. 
Eu vinha caminhando pelo corredor, quando vi um menino saindo de uma outra sala, em disparada, sendo perseguido por ela. Eu imagino que ele deve ter aprontado alguma coisa. Ela, muito agilmente, pegou o menino pelo pescoço, passou uma de suas pernas por entre as pernas dele e fez uma alavanca, de modo que o menino, franzino, girou em torno de seu próprio eixo (um giro de 360 graus por cima da cabeça) e caiu prontinho, sentado, engalhado no recanto da parede, com uma cara de choro, balbuciando uma expressão muito parecida com "me perdoe!". Aquilo foi incrível. Foi certamente um lindo ippon. Eu confesso que fiquei emocionado e nunca mais aquela imagem artística e sutil saiu da minha retina. 
São essas coisas que fazem os alunos seres tão especiais, cada um com suas idiossincrasias...


Um abraço!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A Educação a Distância não é propriamente uma novidade no que se refere às modalidades de ensino. Registros históricos apontam para o séc. XVIII, quando o americano Caleb Philips já enviava correspondências semanais com os conteúdos das aulas para seus alunos. No Brasil, esse processo começou no início do séc. XX, com a instalação das Escolas Internacionais as quais ofereciam cursos profissionalizantes por correspondência. Desde o advento da Lei 9.394/96, a EaD vem passando por um grande processo de expansão e democratização no Brasil. Essa modalidade de ensino, cuja principal característica é a interação entre indivíduos através de recursos tecnológicos de informação e comunicação, constitui-se hoje como uma excelente alternativa à Educação Tradicional.
Isto porque permite uma flexibilização de horários inimaginável no modelo tradicional de ensino. Enquanto a educação tradicional exige a frequência em salas de aula físicas e em horários pré-estabelecidos, a EaD oferece a possibilidade de os alunos prepararem sua própria rotina de estudos, adaptando-a às outras atividades de seu cotidiano. Considerando a rotina dos professores, como é o meu caso, seria pouco provável encontrar tempo para mais um curso presencial. Em um curso a distância, entretanto, é possível estudar mesmo aguardando num consultório médico, na fila de um banco ou, eventualmente, nas madrugadas de insônia.
 Essa facilidade, contudo, pode levar os indivíduos a acreditar que fazer um curso à distância é mais fácil do que seria na modalidade presencial. Ledo engano. A EaD exige do aluno disciplina, compromisso, organização, além da aquisição do hábito de interagir através do uso dos recursos tecnológicos de comunicação e informação disponíveis. Se, por um lado, há grande maleabilidade de horários para ler e estudar os materiais do curso, por outro, o aluno deve estar atento aos prazos de realização e apresentação das atividades. Nesse sentido, o aluno precisa transformar o grande volume de informações às quais tem acesso em conhecimento e isso não acontece assistematicamente.
É bem verdade que ainda há dificuldades a serem superadas como o ceticismo e a resistência de muitas pessoas em dar crédito a essa modalidade. Entretanto, a EaD representa um meio barato, prático, tecnológico e eficiente de democratização da educação, que rompe com o tradicionalismo do ensino, ultrapassa os muros das instituições educacionais e oferece ao estudante a possibilidade de otimização do tempo.


REFERÊNCIAS
TORNAGHI, Alberto José da Costa; PRADO, Maria E. B. Brito; ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconi. Tecnologias na Educação: ensinando e aprendendo com as TIC. Guia do Cursista. 2 ed. – Brasília, 2010.

MUGNOL, Marcio. A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO BRASIL: Conceitos e Fundamentos. Rev. Diálogo Educ., Curitiba, v. 9, n. 27, p. 335-349, 2009. Disponível em: <http: www.pucpr.br/reol/index.php/dialogo>. Acesso em: 31 ago. 2014.

sábado, 27 de dezembro de 2014

SONETO DA SAUDADE


Sem razão alguma fonética,
Saudade combina com dor.
Cruel insígnia de amor:
Indizível para a dialética.


Sem causa alguma fonológica,
Saudade rima com sentimento.
Desafio ao discernimento:
Relação complexa, dialógica.


Que seja uma marca profunda
Das flores e perfumes da vida
Dos sons que vivemos e agradam.


Por sua essência infinita
Em nosso coração escondida
Lembrança do amor oriunda.



Danilo César

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CÓDIGO DE CONDUTA DAS AULAS DE INGLÊS

TÍTULO I
Das Disposições Preliminares


Art. 1º. Compete privativamente a este professor legislar sobre:
I - direito estudantil;
II - comportamento e disciplina;
III - natureza das medidas disciplinares;
IV - uso de aparelhos eletrônicos;
V - horário de beber água e ir ao banheiro;
Parágrafo Único: os alunos poderão contestar as Leis desde que este professor considere, previamente, a constitucionalidade das demandas requeridas.


TÍTULO II
Das Partes


Art. 2º. Todo aluno que se acha no pleno exercício das aulas tem direito a estar em juízo.
Art. 3º. Os evadidos, relapsos, desrespeitosos e impontuais não poderão acionar colegas e professor judicialmente na forma da Lei.
Art. 4º. O professor terá sempre a última palavra para dirimir as questões suscitadas durante o processo.


TÍTULO III
Dos Atos Processuais


Art. 5º. Os atos e termos processuais correrão em segredo de justiça.
Art. 6º. Em todos os atos e termos do processo é obrigatório o uso de vernáculo, salvo quando o professor exigi-los em Língua Inglesa.


TÍTULO IV
Da Formação, da Suspensão e da Extinção do Processo


Art. 7º. O processo administrativo-disciplinar-educacional começa por iniciativa da parte, mas se desenvolve por impulso oficial.

Art. 8º. O processo poderá ser suspenso:
I - pela evasão, transferência ou desistência do aluno;
II - pela convenção das partes;
III - por motivo de força maior.


TÍTULO V
Das Condutas Vedadas


Art. 9º. Chegar atrasado às aulas.
Art. 10. Fazer as atividades de outras disciplinas durante as aulas de Inglês.
Art. 11. Deixar de fazer as atividades
Art. 12. Deixar de responder aos questionamentos orais do professor;
Art. 13. Desrespeitar ou desacatar o professor;
Art. 14. Empregar palavrões como pronomes de tratamento;
Art. 15. Portar telefones celulares ilegalmente;
Art. 16. Pedir para "resolver um problema" durante as aulas;
Art. 17. Traficar respostas durante as avaliações individuais;
Art. 18. Receptar respostas durante as avaliações;
Art. 19. Colocar nas atividades o nome de quem não estava presente à aula;
Art. 20. Perguntar as mesmas coisas mais de duas vezes;


TÍTULO VI
Das Penalidades


Art. 21. A penalidade prevista para as condutas vedadas de que tratam os art, 9 (atraso), 10 (desvio de tarefa), 19 (falsidade ideológica) e 20 (caninga) é advertência.
Art. 22. A penalidade prevista para as condutas vedadas de que tratam os art. 11 (preguiça) e 12 (omissão) é a perda de 10% (dez por cento) da nota obtida no bimestre.
Parágrafo Único: Em caso de reincidência, o percentual será dobrado.
Art. 23. As penalidades previstas para as condutas vedadas de que tratam os art. 13 (insubordinação) e 14 (homem de neandertal) são advertência e atividade extra.
Art. 24. As penalidades previstas para a conduta vedada de que trata o art. 15 (porte ilegal de celular) são advertência, recolhimento do aparelho e exclusão dos arquivos.
Parágrafo Único: O aluno poderá reaver, a qualquer tempo, o seu aparelho desde que mediante pagamento de fiança correspondente a 10% (dez por cento) do valor do equipamento.
Art. 25. A penalidade prevista para a conduta vedada de que trata o art. 16 (migué) é advertência.
Art. 26. A penalidade prevista para as condutas vedadas de que tratam os art. 17 (tráfico de resposta) e 18 (receptação de resposta) é a perda de 20% (vinte por cento) da nota obtida no bimestre.
Parágrafo 1º: Em caso de reincidência, o percentual será triplicado.
Parágrafo 2º: O professor poderá estabelecer multa a seu bel-prazer.


TÍTULO VII
Do Foro

Art. 27. Por livre e espontânea pressão deste professor, as partes elegem o Tribunal Escolar para esclarecer quaisquer questões pertinentes a este instrumento.

Art. 28. Esta lei entra em vigor a partir do primeiro dia de aula.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SER OU ESTAR: EIS A QUESTÃO!

Há cerca de quatro séculos, o grande William Shakespeare escrevia "Hamlet", um dos maiores clássicos da literatura ocidental. Uma história com enfoque existencialista e filosófico, uma reflexão que transcende os limites da retórica e que é amplamente lembrada por aquele célebre sintagma: "ser ou não ser: eis a questão."
Mas, aqui, do lado de fora dos muros do Castelo de Elsinore, esse texto veio à minha memória ao ouvir o discurso de uma pessoa que acabara de ser nomeado diretor de uma escola. Dizia ele com uma firmeza verossímil:
- Eu não sou diretor. Eu estou diretor! 
Essa assertiva provocou em mim, além de certa estranheza, alguns questionamentos. Decerto, eu não quis alternar momentos de loucura real com loucura dissimulada, nem tampouco arquitetar uma vingança. Eu senti apenas a necessidade de analisar o discurso, já que aquela não era a primeira que meus ouvidos eram invadidos por tais palavras.
Considerando o aspecto moral do discurso, é possível perceber uma tentativa de demonstração de humildade. Mas quem disse que humildade é provada com discursos isolados? A humildade precisa ser demonstrada e vivenciada todos os dias, através de atitudes e nas relações com as pessoas com as quais se convive. Ninguém precisa dizer que é humilde. Se alguém o for, as pessoas saberão. Além disso, esse discurso fornece elementos para uma interpretação maliciosa na medida em que aponta para uma fuga das responsabilidades, como se não existisse o desejo de assumi-las.
Conceitualmente, a diferenciação proposta entre os verbos ser e estar é uma questão fundamentalmente linguística. Em que pese essa dualidade de sentidos em português, na língua inglesa - idioma original da obra shakespeariana - existe apenas um verbo para indicar as duas situações. Assim, a diferença existe, mas não é tão considerável como imaginam as pessoas simpáticas a essa ideia.
Por fim, levando em consideração os aspectos práticos desse discurso, percebe-se facilmente toda a sua superficialidade. Nunca vi, por exemplo, um pai que quer resolver um problema do seu filho, chegar na escola e perguntar: 
- Quem está diretor dessa escola?
Isso não acontece porque, na prática, enquanto alguém está, esse alguém é. Eu entenderia se a pessoa nomeada já assumisse o cargo sabendo que ficaria uma semana ou quinze dias. Nessa situação, o discurso do "eu não sou, eu estou" faria algum sentido. A não ser nessa hipótese, esse discurso é uma grande falácia.
A pessoa que assume um cargo de diretoria de escola precisa incorporar sua função. Precisa tentar exercer sua liderança sem, evidentemente, violar os princípios da gestão democrática. Precisa chamar para si a responsabilidade de gerir a escola em seus aspectos sociais, pedagógicos e administrativos. Esconder-se atrás de um discurso vazio de humildade é apenas uma maneira de encobrir uma eventual falta de preparo.


Um abraço!